Tanta luz, tanta cama

Tanta luz, tanta cama

Neste dia de tanta luz
e pássaros a gorjear
(que aqui não gorjeiam como lá),
jazo eu,
se é assim que se diz,
nesta cama deitado, imóvel
(ela, a cama imóvel e deitada também,
pois cama; uma vez que se deita,
nunca se levanta).

Cruzo as mãos sobre o peito
e penso nas costuras
que seguram a carne e mantêm dentro
o que fora seria triste figura.
E se aquele Deus
que me deu meia maçã,
me visse neste estado, pensaria,
e não há porque duvidar,
que não deveria dar o que deu
a quem não sabe ter o que recebeu.


Penso no incômodo inerte,
insignificante inutilidade,
que para prazer da carne pouco serve,
apenas líquido verte...


Vejo os pés que ainda serventia guardam
de manter, alto e distante,
o pensar,
aquilo que ainda me serve quando assim o deseja,
porque, no mais das vezes
põe-se a correr
sabe-se lá por onde...


felipe 15XII2000

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